Arquivo de 17 de Abril de 2009

Novaiorquinos apostam no adubo orgânico

Laura Silver, da IPS

Todos os sábados os habitantes do bairro novaiorquino do Brooklyn vão ao mercado de verduras do parque de Fort Greene, mas não apenas para comprar. Levam sacolas de plástico e baldes cheios de casca de vegetais, sacos de chá usados e produtos com validade vencida. Tudo pelo composto, ou adubo orgânico. “Guardo na geladeira, em um saco plástico, por uma semana, e depois levo ao mercado. Ajuda a diminuir meu lixo”, disse o morador Jake Robbins. O esforço coletivo permite coletar 365 quilos de sobras de alimentos por semana. Os jardineiros locais os transformam em seguida em “ouro negro”: o composto serve para melhorar cultivos urbanos e ajuda a reduzir o lixo sólido municipal, que acabam se decompondo nos lixões.

Não se paga pelas cascas de laranja ou coroas de cenouras. Mas existe um senso de ajudar a apoiar o ecossistema local. “Acredito na elaboração do composto”, disse Arnold Smith, que em um sábado se desfez de um balde de couve de Bruxelas vencidas, bem como de grãos de milho e frutos impróprios para o consumo. “Somos uma família de quatro pessoas e comemos muito”, contou. Além disso, tem um quintal de cimento, o que tornaria difícil elaborar ali o composto.

Aos sábados no mercado de Fort Greene os voluntários instalam seis latas diante dos postos de venda de maças, cebolas, mel e sidra. O cartaz apoiado nas latas de lixo não exibe preço: colocar ali os dejetos orgânicos não tem custo. Mas se incentiva os participantes a retirar sacos das latas e substituí-los por novos durante o dia. O Conselho sobre Meio Ambiente de Nova York patrocina 45 mercados de rua de verduras dentro dos cinco distritos da cidade, mas este é o único ponto de venda que permite deixar ali os dejetos para composto. “São coisas úmidas, pesadas, sujas. Não é para qualquer um”, disse Roy Arezzo, do Carlton Bears Garden em Fort Greene.

Ao adubar o solo, o composto captura os metais pesados impedindo que contaminem os recursos hídricos ou sejam absorvidos pelas plantas. Também reduz as emissões de metano, um forte gás de efeito estufa. Comumente, para os que deixam as sobras de alimentos ou para que as recolhem, reduzir o que vai para a corrente do lixo é uma recompensa em si mesmo. E também é uma oportunidade de devolver algo à comunidade, embora não da maneira tradicional. “É preciso estar um pouco louco para transportar composto”, admitiu Alice Hartley, outra integrante do núcleo que em outubro de 2006 ajudou a assentar as bases para o sistema de transporte do composto.

Agora, no transcurso de um mês, quase uma dezena de pessoas se revezam para transportar os restos de comida em um triciclo industrial construído expressamente para essa finalidade. Trata-se de um aparelho de velocidade única, com freios de pé e uma plataforma semelhante a uma jaula colocada na parte dianteira, desenhada para transportar 10 sacos cheios de dejeto alimentar. A cada semana, são feitas três ou quatro viagens desde o mercado até um dos quatro jardins participantes a uma distância de 1,6 quilômetro, equivalente a 15 minutos.

Charlie Bayrer, que faz trabalhos de manutenção na vizinhança, é um autodidata guru do composto, que elabora há 11 anos em Hollenback Garden. Ele calcula que as sobras de alimentos deixadas nas latas do mercado representam metade da matéria-prima que gerada pelos 15 metros cúbicos de composto terminado que seu jardim produz por ano. Depois que os dejetos de alimentos sem tratamento chegam ao jardim, tem início outro processo coletivo. Colaboradores ajudam a integrar as sacolas de sobras em cinco montes de composto que geram temperaturas de 71 graus e que às vezes são usados para aquecer recipientes de sidra.

Bayrer está feliz pela forragem para seus tórridos montes de composto, mas não se importaria se alguém que passasse por ali fizesse mais do que deixar as casas das frutas. “Seria lindo se fossem mais curiosos sobre o que acontece depois”, disse durante uma viagem no “verduriciclo” que seguiu um trecho da rota da maratona da cidade de Nova York. Em geral, o sistema continua funcionando com um grupo pequeno mas dedicado. “Nesse ponto é um acordo de manutenção muito baixa”, contou Hartley, encarregado de comunicações de uma empresa de arquitetura e que, como Bayrer, se especializou na elaboração de composto nos jardins botânicos do Brooklyn.

“Alguém simplesmente sobe no triciclo e sai dirigindo”, disse, Bayrer, acrescentando que o grupo não perdeu um único fim de semana desde que o projeto começou, há três anos. Nem a chuva, nem a neve e nem as temperaturas de 32 graus os impedem de fazer as viagens. Aos 161 anos, o parque de Fort Greene, de 12 hectares, está salpicado por lixos para coletar metal, mas não há recipientes destinados ao lixo orgânico. “Fort Greene não quer resíduo alimentar em seu parque”, disse Arezzo, professor de ciências que há cinco anos começou um projeto para elaborar composto na escola secundária onde trabalhava. O Departamento de Parques “tem muito medo do dejeto alimentar’, afirmou.

Phillip Abramson, porta-voz do Departamento, evitou a questão dos alimentos, mas insistiu que as pilhas de composto “ajudam a cidade ao desviarem os resíduos orgânicos da corrente de dejetos”. E embora esse órgão não tenha um controle direto sobre a maioria dos jardins comunitários na cidade, há cooperação, especialmente para ajudar a impulsionar a imagem ecológica desse departamento. “Estimam que dois terços de nossos 500 jardins comunitários têm algum nível de elaboração de composto”, afirmou Abramson por correio eletrônico.

O Departamento de Parques de Nova York elabora composto a partir de galhos de árvores, lascas e pedaços de arbustos da cidade. O Departamento de Saneamento oferece vários dias “de devolução”, quando os jardineiros urbanos podem viajar às áreas periféricas para recolher composto feito de resíduos do parque. Mas isso não envolve sobras de alimentos. Coletar cascas e borra de café continua sendo um esforço da sociedade civil. Hartley, que ajudou a implementar o sistema do “verduriciclo”, espera que chegue o dia em que os esforços de seu grupo motivem outras pessoas a criar projetos locais de sustentabilidade. “Mantemos algumas conversas com as pessoas do mercado verde sobre replicar este modelo. Esperamos que este programa ganhe uma dimensão maior”, acrescentou.

O diretor do mercado verde de Nova York, Michael Hurwitz, concorda. E afirma que o caminho para a elaboração do composto é um método excelente de manejo sustentável de lixo em pequena escala. “Gostaria que estivesse sendo gerado em cada um de nossos mercados”, disse. Isso envolveria identificar grupos e organizações locais dispostas a fazer o trabalho sujo. Por sua vez, Hurwitz cita um exemplo de sua vida pessoal. Ele vive perto do mercado do parque de Fort Greene e usa o adubo orgânico deixado semanalmente ali. E, muito frequentemente, os restos de suas verduras terminam ainda mais próximo de sua casa: em seu jardim. “Às vezes, acabo de comer uma cenoura e simplesmente jogo sua coroa no solo”, contou.

* Este artigo é parte de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org).

(Envolverde/IPS)

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Cientistas expõem efeitos do glifosato

Marcela Valente, da IPS

O glifosato, herbicida amplamente usado em cultivos de soja na Argentina, causa má-formação no desenvolvimento de embriões anfíbios, afirmam cientistas desse país que divulgaram algumas descobertas obtidas através de uma pesquisa com o inseticida. “As deformações observadas são consistentes e sistemáticas”, disse à IPS o professor Andrés Carrasco, diretor do Laboratório de Embriologia Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires (UBA) e pesquisador principal do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet).

A redução do tamanho das cabeças dos embriões, alterações genéticas no sistema nervoso central, aumento de morte de células que intervêm na formação craniana e cartilagens deformadas foram efeitos repetidos na experiência de laboratório, resumiu o biólogo. A notícia foi divulgada segunda-feira pelo jornal Página 12. Carrasco explicou à IPS que as conclusões correspondem a um resumo de “uma investigação com dados precisos”, mas que o trabalho final ainda não está pronto para publicação. Porém, considerou necessário divulgar os primeiros resultados “por uma questão de interesse geral”.

O glifosato é o princípio ativo do herbicida Roundup, fabricado pela norte-americana Monsanto, que desenvolveu as sementes de soja geneticamente modificadas para resistir a altas doses desse produto que combate toda espécie verde que não seja essa variedade transgênica. A responsável pela comunicação dessa empresa na Argentina, Fernanda Pérez Cometto, a Monsanto tem “diversos estudos que mostram a inocuidade do herbicida em humanos, animais e no meio ambiente”. Mas, enquanto não conhecer o estudo da UBA a companhia “não dará nenhuma opinião”.

“É chave conhecer que tipo de metodologia foi usado para ter evidências, por isso solicitamos ao laboratório uma copia do estudo”, disse Cometto. De todo modo, insistiu, a porta-voz, o herbicida da Monsanto foi avaliado em 1996 por autoridades argentinas que o qualificaram como sendo de “improvável risco grave”. A funcionária disse que, “obviamente, se trata de uma substancia que deve ser usada corretamente, com os alertas existentes no rotulo, como o repelente ou o hipoclorito de sódio. Não se pode tomar um copo de herbicida e achar que não haverá nenhum efeito”.

Carrasco explicou que em uma primeira fase da experiência foram submersos embriões anfíbios em uma solução do herbicida diluída em água em uma proporção até 1.500 vezes menor do que a usada nas plantações argentinas. Os embriões desenvolveram deformações na cabeça. Em seguida, células embrionárias injetadas com glifosato diluído em água, mas sem os aditivos do produto comercial para facilitar sua penetração, apresentaram um impacto ainda mais negativo, o que revela que a toxidade está no princípio ativo, não nas demais substancias, afirmou o biólogo.

“É de supor com certeza que o mesmo que ocorre com anfíbios pode ocorrer em humanos”, disse Carrasco, que trabalha com uma equipe de especialistas em biologia, bioquímica e genética há 15 meses. Os resultados são comparáveis pela conservação dos mecanismos que regulam o desenvolvimento embrionário dos vertebrados. “É evidente que o produto acumula nas células”, alertou.

Uma mistura potencializada de glifosato lançada por aviões é uma das armas usadas pelas autoridades da Colômbia para erradicar à força as plantações ilegais de coca, matéria-prima da cocaína. Os efeitos destas fumigações sobre outras plantações, animais e pessoas em zonas fronteiriças com o Equador levaram a denúncias internacionais de Quito contra Bogotá. Na Argentina são usados cerca de 200 milhões de litros de glifosato por ano. A soja ocupa cerca de 50% da superfície agrícola, quase 17 milhões de hectares, e é o principal produto de exportação. O herbicida é aplicado principalmente através de fumigação aérea.

O engenheiro agrônomo Jorge Gilbert, do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA), disse à IPS que o glifosato, como outros produtos químicos usados para combater pragas e mato, “não é bom nem mau por si mesmo, mas depende das técnicas de aplicação que são utilizadas”. O INTA fornece assessoria técnica aos agricultores, mas nunca assumiu uma posição crítica à soja transgênica. Ao contrário, muitos de seus profissionais consideram que a introdução da semente modificada resistente ao herbicida foi um avanço no desenvolvimento rural.

Por outro lado, organizações ambientalistas e sociais denunciam há pelo menos cinco anos que as áreas povoadas vizinhas das plantações de soja sofrem grande quantidade de casos de câncer, deformações congênitas, lupus, doenças renais e respiratórias, dermatite e outras enfermidades. O não-governamental Grupo de Reflexão rural (GRR), que em 2006 lançou a campanha “Parem de fumigar” nas províncias com mais plantações de soja, divulgou este ano um informe com testemunhos de moradores, ativistas e médicos rurais de dezenas de localidades do país.

O advogado do grupo, Osvaldo Fornari, disse à IPS que o informe foi apresentado à justiça federal para que investigasse o trâmite de aprovação do herbicida e, com base nos casos de eventuais vítimas por contaminação, pediu a aplicação do princípio precautório e a proibição preventiva do uso do Roundup. A presidente argentina, Cristina Fernández estabeleceu por decreto uma comissão nacional integrada por pessoal técnico do Ministério da Saúde, das Secretarias de Meio Ambiente e Agricultura e do INTA, que deverá determinar os impactos sanitários e ambientais do glifosato.

(Envolverde/IPS)

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Brasil: mais 45 novos transgênicos podem ser liberados pela CTNBio

A CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) reúne-se nos próximos dias 15 e 16/4. Além de pedidos de autorização de importação de sementes, a comissão irá deliberar sobre a liberação comercial de 45 variedades de sementes transgênicas de soja, milho, feijão e cana-de-açúcar resistentes ou tolerantes a agrotóxicos, insetos e vírus

As sementes avaliadas são de propriedade de Monsanto, Dow AgroSciences, Alellyx Apllied Genomics, Coodetec, Embrapa Arroz e Feijão e DuPont do Brasil - Divisão Pioneer Sementes.

Há duas semanas, os membros da CTNBio decidiram adiar a votação do pedido de liberação do arroz transgênico da Bayer, o Liberty Link 62, até que mais pareceres técnicos sejam apresentados. O arroz só deverá entrar novamente na pauta de votação no segundo semestre deste ano.

A precaução em aprovar o arroz transgênico destoou do ritmo adotado pela comissão desde o início de 2008. No Brasil, já estão liberadas para comercialização seis variedades de alimentos transgênicos: uma de soja e cinco de milho. Criada há 10 anos, comissão avaliou apenas cinco processos até 2007. Porém, somente em 2008, a CTNBio aprovou sete licenças para a comercialização de sementes transgênicas. Entre as transnacionais agraciadas pelas liberações estão Monsanto, Bayer, Syngenta, Fort Doghe, Boehringher Ingelheim e Intervet.

Também durante o ano passado, a comissão liberou 12 experimentos de campo com variedades transgênicas de eucalipto, última etapa da pesquisa antes do pedido de uso comercial.

(Biodiversidad en América Latina y El Caribe)

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Alternativas ao agrotóxico

É hora de apoiar as pesquisas em favor de defensivos agrícolas naturais como forma de defender a saúde da população e o meio ambiente

Acaba de ser publicada uma pesquisa do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com 17 alimentos oriundos de plantações submetidas ao uso de agrotóxicos. O resultado não deixa dúvidas sobre os perigos que estão incidindo sobre a saúde da população brasileira, por conta disso.

A constatação resultante das amostras (alface, batata, morango, tomate, maçã, banana, mamão, cenoura, laranja, abacaxi, arroz, cebola, feijão, manga, pimentão, repolho e uva) submetidas a exame é a existência de resíduos de agrotóxicos acima do permitido pela Anvisa, e o seu uso não autorizado para determinadas culturas. Segundo os dados, o líder de contaminação é o pimentão, vindo em seguida uva e cenoura. É certo que se registrou uma diminuição da contaminação, quando comparada com os dados de 2007, mas continua preocupante, em virtude dos danos provocados à saúde pública. O próprio Ministério da Saúde reconhece que os agrotóxicos são a segunda causa de intoxicação apresentada pela população brasileira, depois dos medicamentos.

Evidentemente, esses alimentos poderão ser consumidos, se forem higienizados através do uso de uma solução composta por detergente e bicarbonato de sódio, depois de muito bem lavados. Mas, essa providência é tomada por pouquíssimas pessoas: seja por falta de informação, seja por não se querer perder tempo (no caso de restaurantes e hotéis inescrupulosos).

O que se necessita fazer, na verdade, é tomar uma medida radical de substituição dos agrotóxicos por defensivos agrícolas naturais, tanto por causa da saúde imediata da população, como devido aos danos que os produtos químicos causam ao meio ambiente. Isso exige a busca de alternativas consideradas saudáveis e eficazes no controle de pragas e doenças.

Na verdade, essas alternativas – defensivos agrícolas naturais - existem e podem ser utilizadas, cumprindo não apenas uma função sanitária, mas atuando também como fertilizantes agrícolas. Aqui mesmo, no Ceará, há anos assistimos à luta desigual travada pelo pesquisador José Júlio da Ponte para que seja adotado um produto retirado da mandioca - a manipueira – pesquisado por ele, e comprovadamente de alta eficácia para o combate de diversas pragas. Uma das vantagens é que, além de a mandioca ser altamente difundida no Brasil, os custos da produção são ínfimos.

Há várias outras pesquisas na mesma direção (produção de defensivos agrícolas naturais), inclusive a do pesquisador Antonio Souza Nascimento sobre o combate à mosca-das-frutas – todas necessitando o apoio do governo para se viabilizarem. Para isso, é preciso também vontade política das autoridades e disposição para enfrentar o poderoso lobby dos agrotóxicos. Espera-se que a opção seja pela saúde do povo brasileiro e pela proteção do meio ambiente.

(O Povo on Line)

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A Revolução Verde é insustentável

Carlos Gabaglia Penna

Desde o final da 2ª Guerra Mundial, o incremento da produção de alimentos do planeta superou o extraordinário aumento da própria população humana. De fato, entre 1961 e 2005, por exemplo, a população global cresceu 111%. No entanto, no mesmo período, a produção de cereais (grãos) – a base da alimentação global - subiu 154%, a produção total de carne 280%, a de peixes, crustáceos e moluscos capturados nos mares e criados em cativeiro 227% (FAO).

Todo essa elevação espantosa da oferta de comida deve-se à Revolução Verde, que tem como fundamento o uso de sementes de alto rendimento, fertilizantes, pesticidas, irrigação e mecanização. A verdade é que a fome renitente que assola o planeta é função da falta de recursos para comprar comida, ou seja, da enorme injustiça social vigente, não da falta de alimentos (no período 1969-1971 a população global subnutrida representava 29% do total. Em 2005, esse percentual havia caído para 14%, segundo a FAO).

Em que pese todos esses índices animadores, diversos fatos comprovam que a Revolução Verde é insustentável em longo prazo. Erosão e compactação do solo, poluição do ar e do solo, redução dos recursos hídricos (a agricultura é responsável por 70% do consumo humano de água), perda de matéria orgânica do solo, inundação e salinização de terras irrigadas, exploração excessiva dos recursos pesqueiros e poluição dos mares têm contribuído para a desaceleração da taxa de crescimento da produção alimentar.

É verdade que se pode ainda melhorar bastante a produtividade agrícola dos países em desenvolvimento - a solução mais promissora - e, em países como o Brasil, ampliar as fronteiras agrícolas (o que provoca inevitavelmente a destruição dos ecossistemas invadidos). Mas, mesmo os observadores mais otimistas reconhecem que o aumento da produção de alimentos está gradualmente se reduzindo, tendendo assim a ficar abaixo do aumento populacional.

Nos últimos 20 anos, aproximadamente, o índice de crescimento da produção anual de grãos ora é maior, ora é bem menor do que o do crescimento populacional. Entre 1985 e 2005, a produção de cereais cresceu 22,5%, enquanto que a expansão demográfica foi de 34,2%. Outros alimentos vegetais, como sementes, raízes e tubérculos, conheceram igualmente aumento inferior ao da população.

Nesse intervalo de tempo (1985-2005), a única taxa de aumento de produção alimentar que superou a taxa demográfica foi a de carne (de todos os tipos). Contudo, a pecuária é totalmente dependente da produção agrícola, notadamente a de grãos. Inevitavelmente a oferta de carne cairá quando a produção de cereais sofrer retração.

A produtividade agrícola, que progrediu muitíssimo nas últimas décadas, não continuará a crescer indefinidamente. Entre outras razões, é obviamente limitada a quantidade de fertilizantes que as atuais variedades agrícolas podem assimilar. Estes e a disponibilidade de água para irrigação são as duas principais causas da explosão alimentar no pós-guerra. A água também é obviamente limitada. A irrigação está causando, no mundo inteiro, o rebaixamento, ou mesmo a secagem, de rios e aquíferos. Em diversos lugares, comunidades disputam, crescentemente, a água com fazendeiros.

As duas causas citadas não são as únicas. As melhores terras do planeta já foram ou estão sendo exploradas. A ampliação de terras destinadas ao plantio encontra, cada vez mais, obstáculos, desde cidades, barragens, estradas e unidades de conservação até a oposição de comunidades que rejeitam os danos decorrentes de grandes áreas de monocultura. Sem falar nos custos crescentes dessas terras.

Outra dificuldade para a contínua expansão é a aplicação crescente de pesticidas. No Brasil, o uso de pesticidas subiu de 0,3 kg por hectare (ha), em 1991, para 1,2 kg/ha dez anos depois, um aumento de quatro vezes. Na Argentina, em apenas cinco anos (1993-1998), a aplicação desses produtos químicos partiu de 0,9 kg/ha para 1,9 kg/ha (nos Estados Unidos, em 1997, usava-se 2,3 kg/ha).

Apesar da utilização crescente de agrotóxicos, o mundo vem conhecendo um aumento também expressivo de pragas agrícolas. No início do século XX, as pragas resistentes não chegavam a cinco, mas a partir dos anos 1950, elas conheceram um aumento acelerado, coincidindo com o uso generalizado desses defensivos. Em 1980, mais de 400 artrópodes (principalmente insetos) já tinham desenvolvido resistências à maioria dos produtos químicos, somados a mais de uma centena de organismos patogênicos de plantas. Além disso, um certo número de espécies de ervas daninhas tornou-se resistentes aos herbicidas.

Embora o uso de pesticidas tenha aumentado exponencialmente, mais de 30 vezes entre 1950 e o final dos anos 1980, um número crescente de ervas daninhas, insetos e doenças desenvolveram resistência a esses produtos. Em 1950, o total de pragas agrícolas era inferior a 100 e atualmente é superior a 700.

Os impactos de pesticidas já são bastante conhecidos. Eles liberam poluentes orgânicos persistentes (POPs), substâncias extremamente tóxicas que se espalham pelo meio ambiente e se acumulam nos tecidos orgânicos de peixes, aves e mamíferos, com sérios danos ao meio ambiente e à saúde humana (as primeiras vítimas são os que aplicam os pesticidas, principalmente nos países em desenvolvimento). Os POPs são “destruidores endócrinos”, prejudicando o sistema hormonal de seres humanos e de outros animais. Provocam também cânceres e danos ao sistema nervoso (neurotoxinas).

Os fertilizantes promoveram um acréscimo fantástico à produtividade agrícola. A colheita de milho nos EUA, por exemplo, tem atualmente uma produtividade cerca de quatro vezes maior do que a dos anos 1930. Entre 1961 e 2005, a quantidade de cereais colhida por hectare aumentou 141% (média mundial). No entanto, os fertilizantes químicos não absorvidos pelas plantas contaminam a água potável, provocam danos aos pesqueiros litorâneos devido às marés ‘vermelhas’ de algas, eutrofizam lagos e contribuem para a formação do poluente ozônio troposférico, com efeitos nocivos à agricultura e às florestas.

A par dessas consequências, os fertilizantes são os maiores produtores de óxido nitroso (N2O), um dos cinco gases do efeito estufa que mais contribuem para o aquecimento global.

Torna-se cada vez mais evidente que a Revolução Verde é insustentável. Ela polui o ambiente natural, com consequências graves à saúde humana e ambiental, degrada ecossistemas nativos, tende a esgotar os recursos hídricos e, do ponto de vista energético, apresenta um saldo negativo. Devido ao uso intenso de combustíveis fósseis em todas as etapas do seu processo, a agricultura em escala industrial utiliza, atualmente, de sete a dez calorias dessas fontes de energia para fornecer uma caloria de alimento.

Será inevitável rever - mais dia, menos dia – esse sistema de produção. O crescimento vertiginoso da agricultura orgânica aponta um dos caminhos. Alimentar a população humana de forma equilibrada não necessita de aumento contínuo da produção (uma impossibilidade física), mas sim de melhor distribuição global de riquezas e de um freio à expansão no consumo de carne em geral. Mundialmente, cerca de 40% dos grãos colhidos alimentam diretamente a pecuária (quase 80% da soja), o que significa uma grande perda de energia alimentícia.

(O Eco)

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