Marinha e Exército abrem portas para pequena empresa

RIO DE JANEIRO - Como se transformar em fornecedor das Forças Armadas? Donos de empresas de vestuário, calçados e alimentos conheceram o caminho das pedras na manhã da terça-feira (6), nos painéis de oportunidade do segundo dia do Fomenta – II Encontro Nacional de Oportunidades para as Micro e Pequenas Empresas nas Compras Governamentais.

No painel sobre ‘Compras públicas de alimentos e bebidas, panificação e produtos agrícolas e orgânicos’, apresentado pela capitã do Exército Márcia, os empresários aprenderam que as micro e pequenas empresas do setor têm alguns benefícios, pois além de medicamentos, os alimentos são os únicos itens comprados de forma descentralizada pelas Forças Armadas. “Todas as compras são feitas em bloco, nas 12 regiões militares que existem no Brasil. Já os medicamentos e alimentos são comprados localmente e separados. Por isso, minha sugestão é que cada empresa procure a sua região militar para buscar as oportunidades”, informou a capitã.

Ainda de acordo com a capitã, a agricultura familiar tem dispensa de licitação e o Exército paga 30% a mais pelo produto orgânico, como incentivo. “Do Fundo Nacional do Desenvolvimento Escolar, 30% das compras são para beneficiar a agricultura local”, revelou.

Potencial em todo o Brasil

O major Francisco Airton Gomes do Comando Logístico (Colog) e o comandante da Marinha Marcos Lucio explicaram como os empresários devem proceder nas compras públicas de vestuário e calçados. O major Airton informou que o Colog funciona em Brasília e cuida dos suprimentos e transporte do Exército. “O potencial anual de compras de todos os setores do exército brasileiro é considerável: R$ 1,2 bilhão. Temos 600 unidades em todo o Brasil, com um efetivo militar de 200 mil homens ao ano. Vender uniformes para o Exército é um nicho importante para as micro e pequenas empresas”, informou.

E as oportunidades são inesgotáveis. Somente nos uniformes de fardamento e passeio, os produtos vão desde coturnos dos mais diversos tipos, sapatos, tênis, sandálias e botinas, boinas, gorros e chapéus, sungas, calção de educação física, camisetas, cintos, ponchos e mochilas até roupas de cama, suporte para diferentes equipamentos (marmita, curativo, carregador de fuzil, entre outros, que vão acoplados ao cinto de combate). “Vender para o Exército não é difícil. Os empresários podem nos procurar, expor seus produtos porque estamos interessados em comprar. Basta cumprir o que está determinado na lei de licitações, que ganha quem tiver o menor preço”, ressaltou.

O Colog ainda não faz editais específicos para as micro e pequenas empresas, mas permite que empresas do segmento participem dos editais. “Há interesse em inserir ainda mais essas empresas no cadastro de fornecedores. A única ressalva é que as empresas devem obrigatoriamente estar no Sistema de Cadastramento Unificado de Fornecedores (Sicaf) e no Sistema Integrado de Administração de Serviços Gerais (SIASG). Ainda há a possibilidade do fornecedor buscar uma certificação prévia, enviando amostras de material para que façamos testes em laboratório ou em campo. Não é impeditivo vender uniformes sem o certificado, mas tê-lo é uma vantagem em relação aos que não têm”, avisou.

O major informou que o método de aquisição são as licitações e que 95% delas são via pregão eletrônico. “Também há compras diretas, em casos excepcionais”, complementa. E os produtos fornecidos pelas micro e pequenas empresas brasileiras podem viajar pelo mundo. “O Exército Brasileiro está no Sistema OTAN de Defesa, ou seja, um suprimento nosso pode vir a ser utilizado por militares de países do Atlântico Norte”, revelou.

Relações mais estreitas

Já o comandante Lucio, do Centro de Obtenção da Marinha do Rio de Janeiro (Comrj), um órgão de obtenção do Sistema de Abastecimento da Marinha no País, explicou que, ao contrário do Exército, as compras não são centralizadas em Brasília. Ele disse que, apesar do rigor da Marinha, cada vez mais, as relações com os fornecedores estão se estreitando. “Como nem todos eles fornecem com exclusividade para a Marinha, os prazos médios de fornecimento por gerência foram dilatados de 90 a 120 dias. Isso foi uma conquista deles, para, caso tenham na linha de produção outro pedido, não atrasar a entrega da Marinha”.

O diálogo com os fornecedores está tão afinado, segundo o comandante, que determinadas exigências dificilmente encontradas no mercado podem ser substituidas. “Um exemplo foram panos de prato que, de acordo com a licitação, deveriam, por exigência, ter uma determinada medida. Acompanhei um dos fornecedores em diversas lojas, e foi comprovado que ela não existia. Por isso, alteramos as especificações, colocando uma metragem mínima e uma máxima. É um contra senso, um ‘tiro no pé’ sermos tão exigentes a ponto de querermos algo que não encontramos no mercado. No entanto, as especificações dão igualdade de competição”, avaliou.

Não foi a única vez que o comandante saiu de sua base para ir a campo fazer verificações. “Nosso objetivo é identificar potenciais bons e novos fornecedores. Vamos in loco para checar, até mesmo antes da compra, se o candidato a fornecedor é especulador, está de má fé ou é atravessados para tirá-los do processo. Já visitei, pessoalmente, diversas empresas dentro e fora do estado para verificar se são idôneos”, revelou.

O cuidado com os micro e pequenos fornecedores é grande. “Temos uma preocupação diária em tentar reduzir todos os prazos de pagamento, principalmente para as pequenas empresas, pois elas não têm lastro e precisam girar o capital. Tentamos aprimorar o processo para ajudá-las. O que nos interessa é recebermos os produtos como solicitamos. A intenção é firmarmos parcerias ‘ganha-ganha’, com os dois lados satisfeitos: os fornecedores e a Marinha. A parceria é o caminho mais seguro para o sucesso.” O comandante deu um conselho a quem ainda não acessa a internet: “Cada vez mais os pregões são realizados eletronicamente. As oportunidades se multiplicam para quem busca a internet. Os interessados devem entrar no site www.comrj.mar.mil.br, no link licitações e ver as oportunidades não só locais, mas de todo o Brasil”, ressaltou.

Os conselhos não pararam por aí. Ele ainda esclareceu que o tamanho das Forças Armadas não deve assustar. “Apesar de muito exigentes, elas abrem as portas para os fornecedores, pois quem vende para as Forças Armadas têm credibilidade quando apresenta a lista de compradores em outros processos”.

O comandante lembrou que há uma série de itens que são iguais nas três Forças Armadas, mas que são adquiridos individualmente. “Como a palavra de ordem é a interoperabilidade, é muito provável que no futuro as compras sejam unificadas. A tendência é padronizar tudo, mantendo as especificações, pois, há dez anos, foi criado o Ministério da Defesa, que comanda as três Forças”. O exército é a maior força armada. Mas as compras são feitas para manter o estoque. Ou seja, não necessariamente, os pedidos são de centenas de milhares de peças. Podem, ainda, ser feitos para apenas uma unidade.

Segundo o diretor do Comrj, comandante Coelho, que esteve presente no painel, é a quarta vez que a Marinha participa de um evento de compras governamentais. “A intenção é ter cada vez mais as pequenas empresas como fornecedoras, por isso é importante que elas participem das licitações mesmo quando não têm a capacidade produtiva. Ganhará a que tiver menor preço para atender à sua capacidade produtiva. E o restante da compra será segmentado por outras empresas que tenham os menores preços seguintes, até ser atingida a quantidade desejada. Só gostaria de deixar claro que o importante é informar à Marinha antes da licitação”.

Todos os conselhos dados pelo major são bem conhecidos pelos irmãos Helio e Marcio Oliveira, donos da Gabrielle Moresi Confecções Ltda. Eles prestam o serviço de ajustes dos uniformes da Marinha há quatro anos e já participaram de aproximadamente 60 processos licitatórios. “A expectativa é fazer contato com outros órgãos. O Exército foi uma das principais razões de termos vindo ao Fomenta. Se não fosse o evento, teríamos de ir a Brasília para buscar as informações que conseguimos aqui”, revelou Marcio. O irmão também afirmou que fornecer para a Petrobras e os Correios fazem parte dos planos da empresa. A expectativa da dupla é aumentar em 30% o volume de vendas da empresa.

(DCI)

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